RESENHA
BEEKE, Joel. B. Vivendo para a glória de Deus. Uma introdução a Fé Reformada. São Paulo: Fiel, 2012. 414 paginas
Introdução
O
titulo do livro já nos encaminha para o objetivo do autor, apresentar a fé
reformada, que ele identifica como calvinismo, O autor explica no prefácio da
sua obra a motivação que teve para escrever o livro. Procurava um material que
explicasse para o leitor moderno a natureza bíblica, teocêntrica, profunda,
cativante e prática do calvinismo, e corrigir as muitas apresentações
deformadas que existem em muitos lugares sobre essa linha teológica. O alvo do
livro são os leigos e os pastores interessados em aprender os ensinos básicos
do calvinismo, de maneira simples, claro e não técnico. O autor apresenta uma
um escrito claro e sucinto sem ser superficial. Cada capítulo aborda um aspecto
diferente do calvinismo. Os capítulos são curtos e têm uma série de perguntas
de estudo no final, fornecido por Michael Haykin, que permitem que o livro seja
usado em casa ou grupos de estudo.
Ao dividir a obra em seis partes, o autor deseja
mostrar quão abrangente é a teologia calvinista, pois aborda todas a áreas da
vida e do pensamento humano, com um total de vinte e oito capítulos. Desses
vinte e oito capítulos, o próprio Beeke contribuiu com dezoito. Os restantes
dez capítulos consistem em contribuições do Dr. Sinclair Ferguson, do Dr. James
M. Grier, do Dr. Michael AG Haykin, do Dr. Nelson D. Kloosterman, do Rev. Ray
B. Lanning, do Dr. Robert W. Oliver, do Ray Pennings, E Dr. Derek WH Thomas.
1)
"Calvinismo na História"
Na
primeira parte, apresenta o contexto histórico onde foi desenvolvido o
pensamento reformado, analisando as causas que levaram ao surgimento do
movimento. Uma observação neste ponto e importante. O Dr. Beeke só enfatiza os
problemas morais que surgiram na Igreja Medieval, assim como as diferenças
teológicas que resultaram no afastamento de Roma por parte dos reformadores,
para depois explorar a propagação da fé reformada por quase toda Europa; não e
trabalhado nesta secção as causas politicas, económicas ou sociais que conspiraram
contra a hegemonia da igreja católica.
O
movimento reformador reconhece a vários teólogos que cimentaram as mudanças na
fé e praticas da época. Zwinglio e Calvino em Suíça e Lutero em Alemanha são os
mais lembrados. Mas existem muitos outros que ajudaram a espalhar as ideias
reformadas ate Inglaterra e nas colonias do novo continente. O autor tem um
aprecio especial por o grupo nomeado de “puritanos”, que buscaram avançar nas
reformas dentro da igreja inglesa para ajustar-lha aos princípios da Bíblia.
Menção especial merece as diferenças que surgiram muito cedo dentro do
protestantismo. Os luteranos e os calvinistas diferiam em quanto à abordagem de
questões teológicas como a ceia, a função da lei, o papel da justificação e
santificação na salvação, a predestinação e o entendimento sobre o culto.
O Dr. Beeke faz um excelente trabalho ao apresentar as
diferentes confissões de Fé surgidas nas diferentes igrejas nacionais dos
séculos XVI e XVII, destacando as sete mais diligentemente adotadas pelas denominações
reformadas, dedicando também uma secção as duas confissões Baptistas de
Londres.
2)
"Calvinismo na Mente
Na segunda parte do seu livro, "Calvinismo
na Mente", o autor detalha o “âmago” do calvinismo. Perante a tanta
informação distorcida, o Dr. Beeke apresenta uma análise pormenorizada da
essência de essa linha teológica. Ele identifica a doutrina da Soberania de
Deus como o âmago do calvinismo. O interesse primário da teologia reformada é o
Deus trino. Ser reformado, para Beeke, significa enfatizar o abrangente,
soberano e amoroso senhorio de Deus sobre todas as coisas. Toda doutrina e
definida de uma maneira centrada em Deus. O pecado e horrível porque é uma
afronta a Deus. A salvação e maravilhosa porque traz glória a Deus. Concordo
plenamente com o Dr. Beeke quando ele afirma que hoje, em muitas igrejas
chamadas evangélicas, o temor de Deus foi perdido e como consequência de isto,
perdeu-se também o entendimento bíblico do amor de Deus. O homem tornou-se o
centro do evangelicalismo, promovendo uma perspectiva de Deus muito inferior ao
apresentado nas Escrituras.
O enfase da Reforma sobre a graça soberana
enfrentou resistências tanto da Contrarreforma católica, como dos seguidores de
Jacobo Arminius (arminianos ou remonstrantes). Eles apresentaram cinco desafios
teológicos a fé reformada: eleição condicional, expiação universal, depravação
parcial, graça resistível e a possibilidade de apartar-se da graça. Em termos
simples, Beeke resume as respostas do Sínodo de Dort: “A graça soberana de Deus
em salvar os pecadores é central á salvação”.
·
A graça soberana
concebida (eleição incondicional)
·
A graça soberana
merecida (redenção específica)
·
A graça soberana
necessitada (depravação total)
·
A graça soberana
aplicada (graça irresistível)
·
A graça soberana
preservada (perseverança dos santos)
Estos pontos são convenientes memorizados
por meio do acrônimo TULIP (em inglês). Ainda que o autor reconhece que o
acrônimo tem pontos fracos, ele segue essa ordem ao examinar cada ponto. Menção
especial merece o capitulo onze “Filosofia calvinista”, escrito por James Grier.
Nele se apresenta a abordagem filosófico de Calvino de três questões
filosóficas: a questão da realidade (metafísica), do conhecimento
(epistemologia) e da conduta (ética). A conclusão de Grier é que, embora
Calvino não tenha sido filosofo, a sua pregação é seus escritos ajudam os
crentes a andarem no caminho da verdade e provêem alimento rico para o
desenvolvimento de uma filosofia calvinista.
3)
Calvinismo no coração
Nesta terceira parte, Michael A. G. Haykin
apresenta o tema “Cultivando o Espirito”, destacando que historicamente a
tradição reformada tem demostrado possuir um interesse ardente no Espirito
Santo, iniciando por o próprio Calvino. O Espirito Santo e fundamental em cada
área da salvação de pecadores. Ao mesmo tempo, reconhece que existem meios que
nos aproximam a Deus, destacando quatro deles: a Palavra de Deus, a oração, a
Ceia do Senhor e a comunhão com outros crentes. Beeke escrive a continuação
sobre a piedade de Calvino, e como impactou as dimensões teológica,
eclesiológica e pratica de seu pensamento. O autor destaca a ajuda de Calvino a
causa protestante para mudar todo o foco da vida cristã. Pela sua influencia, a
espiritualidade reformada abrange a vida na família, nos campos, no lugar do
trabalho e no mercado.
Seguidamente, O Dr. Beeke enfoca a
santificação no pensamento e na prática dos puritanos. Deve-se lembrar do
aprecio que tem o autor para com o grupo mencionado. Ele continua a confrontar
ideias deformadas acerca do calvinismo, esta vez, a reputação de que é uma
escola de pensamento alheia aos problemas e situações comuns da vida. Beeke
apresenta aos puritanos como modelo de santificação, como expressão prática do
calvinismo, ao defini-la como “o que Deus faz na alma e no corpo do crente”.
Esto sucedia a traves do uso diligente dos meios da graça, já que acreditavam
que o cristão que esta a passar pela santificação tem de enforcar-se para ser
mais semelhante a Deus (imitando o carácter do Pai, conformar-se a imagem de
Cristo e submeter-se a mente do Espirito Santo), purificando-se a si mesmo de
toda impureza da carne (vigiar e orar contra hábitos pecaminosos, fazer a
vontade de Deus e usar os meios da graça), de modo a chegar à santidade madura
no temor de Deus.
4)
Calvinismo na Igreja
Derek W. H. Thomas inicia a quarta parte
falando sobre a ideia de Calvino sobre a estrutura e organização da igreja. Disse o autor que o reformador
acreditava que a salvação de pecadores não acontece em um vácuo, mas no crisol
da igreja visível. Igreja visível é aquela onde “a Palavra de Deus e pregada e
ouvida em sua pureza e os sacramentos sendo ministrados de acordo com a
instituição de Cristo”. Esta igreja visível, devia ser organizada e estruturada
conforme aos padrões bíblicos. Calvino acreditava em um governo eclesiástico
com uma organização forte e uma supervisão meticulosa da moralidade e dos
costumes. O calvinismo eclesiástico apresenta três princípios fundamentais: a
paridade entre presbíteros e bispos, a pluralidades de presbíteros e as igrejas
locais organizadas ao redor de um presbitério.
Ray Lanning apresenta seguidamente, os
fundamentos do culto reformado. A mudança no culto publico foi uma drástica
alteração que os reformadores introduziram na devoção das pessoas. Para
Lanning, Calvino foi muito influente nisto, O culto do reformador para o Dia do
Senhor é uma liturgia da Palavra: O ato central da liturgia é o sermão; o culto
inclui somente os elementos que tem respaldo na Palavra de Deus; o conteúdo de
cada parte da liturgia é extraído das Escrituras. Menção especial recebe a
inclusão da Ceia do Senhor no culto, como subordinada ao ministério da Palavra.
A salmodia métrica de Calvino é uma mostra da importância que ele deu ao canto
congregacional. A seguir, Lanning escreve sobre John Knox, o reformador
escocês, como o mais importante liturgista depois de Calvino. A continuação
refere-se aos Teólogos de Westminster, quem produziram diversos documentos
importantes, conhecidos como os Padrões de Westminster.
As Raízes da pregação reformada e abordada
por Robert Oliver. Iniciando por Calvino repassa os fundamentos da pregação que
caracterizou a igreja surgida da Reforma. Oliver remarca o papel preponderante
da Bíblia de Genebra na pregação focada no evangelho, tanto nos discípulos de
Calvino, por exemplo John Knox, como nos puritanos.
Disse o Dr. Beeke, no capitulo a seguir,
que os pregadores reformados foram chamados de “pregadores experimentais”, já
que o alvo é o âmago dos pregadores calvinistas é aplicar a Palavra de Deus ao
coração de seus ouvintes. Ele detalha dez marcas dessa pregação reformada
experiencial. O autor foca logo em dois capítulos, o trabalho de evangelização
de Calvino e dos puritanos, como o propósito de desmentir aos críticos que
sustentam a ideia de que os reformados não praticam a evangelização.
5)
Calvinismo na prática
Ray Pennings e Joel Beeke tratam nesta
secção sobre o viver diário dos crentes reformados. Ao contrario do dualismo
medieval que seguira a Tomas de Aquino, a Reforma propõe que tudo na vida deve
ser feito para a glória de Deus. Beeke analisa o casamento e a família dos
puritanos como exemplo da vida de um calvinista na pratica. Pennings fala no capitulo
25 sobre o trabalho no ponto de vista calvinista. Ele apresenta os princípios
que o calvinismo tem sobre o trabalho, para confrontar os erros surgidos do
trabalho de Max Weber em quanto ao relacionamento entre a preponderância do
calvinismo em um país e a subsequente prosperidade económica de esse país. O
fundamento do pensamento reformado sobre o trabalho e que Deus é glorificado a
traves dele. Seguidamente, Ray Pennings trata de o serviço politico para Deus,
falando sobre a rica herança reformada no ambiente politico, pregoando sempre o
bem publico. Nelson Kloosterman expõe sobre a ética calvinista no ultimo
capitulo de esta secção, reforçando a ideia que a pratica ética dos reformados
é principalmente teocêntrica (coram Deo, diante de Deus) e centrada na Palavra
de Deus.
6)
O alvo do Calvinismo
Na conclusão do livro, Sinclair B.
Fergunson argumenta que o calvinismo e sempre doxológico, por apegar-se aos
ensinos Bíblicos. Ele enumera vários hinos escritos por calvinistas como um
exemplo de quando a revelação de Deus em sua gloria e assimilada pela fé, a
reação e atribuir toda a gloria a Deus. Isto resulta em uma experiencia de
vida, um estilo de viver.
Em conclusão…
Este livro e uma excelente guia introdutória sobre
teologia reformada, escrito de forma compreensível agradável e educacional.
E admirável as extensas citações e bibliografias
que coloca o autor, o que ajuda a dar seriedade a seu trabalho. É muito interessante como os diferentes
escritores esforçaram-se em incluir o pensamento de João Calvino e cada tema
tratado, examinando a sua influencia nos seus seguidores. O autor deixa claro é
que o Calvinismo como um todo pode ter se originado no trabalho de Calvino, mas
os desenvolvimentos posteriores de outros reformadores, estudiosos e pastores
também definiram o Calvinismo como é conhecido hoje. Como já se mencionou na introdução
do trabalho, e muito patente o apego do autor a tradição dos puritanos,
remarcando uma e outra vez, que eles são os herdeiros legítimos do pensamento
calvinista.
Uma questão que tal vez não foi contemplada
por o Dr. Beeke, foi o excessivo enfases na tradição presbiteriana em desmedro
das outras tradições reformadas. Isso faze que a leitura por vezes deixe a
impressão de ser um tratado sobre essa linha protestante só.
Alem de essa observação, O Dr. Beeke faz um
excelente trabalho ao apresentar as doutrinas básicas do calvinismo, cuidando
de expor o entendimento histórico das mesmas e como impactaram em aqueles que
acreditavam nelas. Perante as criticas e mal-entendidos que a maioria do
evangelicalismo atual tem em relação ao calvinismo, e sem esquecer também o
complexo de superioridade de muitos que se identificam com estas linha
teológica, este libro faz uma exposição equilibrada das ideias reformadas. Mais
importante ainda, ele explica como essas doutrinas devem afetar tudo sobre a
vida do crente.